4 poemas de José Couto

José Couto

Foto: Carmen Kussler

José Couto (Porto Alegre/RS). Professor e poeta brasileiro. Pós-graduado em Educação Ambiental no Centro Universitário La Salle. Cursou como aluno especial o curso de Literatura Brasileira e o de Educação na área de Estudos Culturais na UFRGS, tendo alcançado o mestrado em Educação Ambiental na FURGS. Participou de diversas antologias de poemas, crônicas e contos em diversos livros e periódicos da imprensa cultural do país. Escreve sobre poesia para o jornal O Alvoradense. É o autor de A impermanência da escrita (2010), O soneto de Pandora (2017)e O únicórnio do sul e outras lendas poéticas, sendo deste último livro (em processo de publicação) extraídos os poemas aqui compartilhados.

 

 

o poeta
p/ wander porto

— papai o que é poeta?

os bagunceiros e arruaceiros filho!
uns sonhadores que rasgam dinheiro
desconcertam a linguagem

na lagoa no lugar do lambari
colocam um violino nadando
no céu o pampa verdejante
na planície o mar azulante
e na lapela um girassol gigante

dizem coisas inesperadas
inventam ritmos alucinantes
às vezes até sem rima
atropelam o alexandrino
contrariam as leis dos sentidos
mais confundem que esclarecem

abusam do mistério
nas suavidades e nas asperezas
da luz sob as transparências
e do vento desenhando com nuvens
formas inexatas de bichos

tornam coisas abstratas
em ideias concretas imprevisíveis

são capazes de transfigurar
qualquer lógica ou limite
para declarar o amor a paz
imprescindível e intransferível

e ao final ainda confessam
que o poema não serve para nada
assim como as auroras as utopias
o perfume das cigarras na hortelã
e a trilha das formigas cortadeiras
no jardim depois da chuva

– papai quando crescer
posso ser poeta?

 

&

sabedoria

vovô pode me dizer
onde o diabo perdeu as botas?

— nem que a vaca tussa!

vovó por que sofrer que só cego em porta de igreja?

— menino tu tá na idade
de ser mais faceiro que ganso em taipa de açude!

me diz me conta
é no cafundeu do judas
onde o vento faz a curva?

me conta me diz
quem tá matando cachorro a grito
passou a batata quente
ou tá na capa da gaita?

titia não tem barba
por que joão pediu para tirar do molho?

jessé tem cão
por que fala onde fui amarrar meu bode?

me diz me conta
sem choro nem vela
porque pergunto
e só me respondem

— será o benedito guri!
pensa que berimbau é gaita!

 

&

se sim não se não sim

eu vi uma árvore zumbir pássaros
um castelo mugir suas muralhas
um livro zurrar suas letras

o pastor de nuvens
baliu seus cometas
o professor de desfazer coisas
ladrou a lição pela orelha

o eucalipto no jardim relinchou
seu aroma de romã
posso jurar
ter visto um cão sibilar alegria
e o pão com mel rugir:

– cuco cuco cuco

e sair trotando…

a lua cacarejou
o sol miou
a chuva cricrilou

se a moda pega
daqui a pouquinho
as quatros estações
estarão ululando

os objetos todos crocitando
pulando de um lado pro outro
grasnando

— se sim não se não sim
onomatopaico embaralhou

minha mãe não aprovou e arulhou

— menino pra dentro!

meu pai gostou e coaxou

—  menino pra fora!

meu avô atordoado rosnou

— guri xispa…vaza…pica a mula!

só vovó não emitiu som nenhum
nem sim nem não
nem antes nem depois

ofereceu o colo
e os sons trocados
desapareceram

 

&

poesia

2 xícaras de pôr do sol
3 colheres de arco-íris
1/2 pitada de espanto
1 estrela cadente inteira
2/3 de flores campestres
fragrâncias de mar
e mato molhado de chuva
para enfeitar

modo de preparo

misture tudo numa caminhada
à beira da lagoa dos patos
depois vá pondo às colheradas
de arco-íris com pitadas de espanto
para alegrar dançar cantarolar
quando despertar a leveza do ser
nos olhos dos meninos descalços
corra na planície de olhos fechados
e braços em hélices girando girando
precipitando voos nos pássaros
use a imaginação para aprontar
sirva em estado de graça

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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4 comentários em “4 poemas de José Couto

  1. Um poeta que tem um menino nos olhos, feixe de luz onde veste as letras cinzeladas que debruçam sobre o sol, em um mundo de árvores e cantos de pássaros ecoando notas cálidas.

    Curtido por 1 pessoa

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